RT não é faturamento livre
Se você especifica produtos para os seus clientes — mobiliário, iluminação, revestimentos, marcenaria — existe uma parcela de receita que deveria entrar no caixa do escritório a cada compra realizada. Essa parcela é a remuneração técnica, conhecida como RT. E na maioria dos escritórios de arquitetura e design de interiores, ela escapa sem que ninguém perceba.
O problema não é conceitual. Todo arquiteto sabe que tem direito à RT. O problema é operacional: sem um fluxo claro que acompanhe cada item desde a especificação até o recebimento do valor, pedaços dessa receita simplesmente desaparecem entre planilhas, e-mails e conversas de WhatsApp. Para evitar os erros mais comuns nesse fluxo, veja nosso artigo sobre erros na compra de insumos de interiores.
Este artigo explica o que é RT, como ela funciona na prática, onde o dinheiro se perde e como montar um pipeline que garanta que cada centavo seja rastreado e cobrado.
O que é Remuneração Técnica
Remuneração técnica é a taxa que o arquiteto ou designer de interiores recebe sobre o valor de produtos e serviços que especifica, negocia e gerencia em nome do cliente. Ela existe porque o profissional agrega valor ao processo de compra: seleciona materiais compatíveis com o projeto, negocia condições com fornecedores, acompanha prazos de entrega e garante que tudo chegue conforme especificado.
Como funciona na prática
O fluxo mais comum: o arquiteto especifica um produto no projeto (um sofá, uma marcenaria), solicita cotações a fornecedores, apresenta as opções ao cliente, e quando a compra é aprovada e realizada, recebe um percentual sobre o valor do item. Esse percentual pode vir diretamente do fornecedor (como comissão) ou ser cobrado do cliente (como parte do contrato de serviço).
Percentuais típicos
Os percentuais de RT variam conforme o mercado, o tipo de produto e o acordo entre as partes. Na prática brasileira:
| Segmento | Percentual típico |
|---|---|
| Mobiliário e estofados | 8% a 12% |
| Marcenaria sob medida | 10% a 15% |
| Iluminação | 8% a 12% |
| Revestimentos e acabamentos | 8% a 10% |
| Automação e tecnologia | 10% a 15% |
| Metais e louças | 8% a 10% |
Base legal
A RT é uma prática reconhecida pelo mercado e amparada pelo Código de Ética do CAU (Conselho de Arquitetura e Urbanismo). O profissional tem o direito de ser remunerado pelo trabalho técnico envolvido na especificação e gestão de compras. Não se trata de "comissão escondida" — é um serviço prestado e deve ser tratado com a mesma formalidade de qualquer outro honorário.
RT no fluxo do projeto
A remuneração técnica não acontece num momento isolado. Ela atravessa várias fases do projeto.
Fase de projeto
Durante a elaboração do projeto, o arquiteto começa a especificar materiais e produtos. Cada item especificado é um potencial gerador de RT. Nesta fase, o ideal é já registrar os itens com valores estimados para ter uma projeção da RT total.
Fase de orçamento
Com o projeto definido, inicia-se a fase de cotações. O arquiteto solicita preços a fornecedores, compara propostas e monta o orçamento de compras. Aqui a RT começa a tomar forma concreta: os valores dos itens são definidos e, com eles, o valor da RT por item.
Fase de aprovação
O cliente aprova (ou não) cada item ou grupo de itens. Este é o ponto crítico: se um item é aprovado mas ninguém registra essa aprovação formalmente, ele pode ser comprado sem que a RT seja cobrada.
Fase de compra
A compra é executada junto ao fornecedor. O pedido é feito, o pagamento é processado e a entrega é agendada. A RT deve ser calculada sobre o valor efetivo da compra (que pode diferir do orçamento original).
Fase de recebimento
O produto é entregue, conferido e instalado. Só neste momento a RT pode ser considerada "realizada". Se o fornecedor paga a comissão, ela deve ser conferida. Se a RT é cobrada do cliente, a cobrança deve ser emitida.
Onde o dinheiro se perde
A RT se perde em pontos específicos e previsíveis. Conhecê-los é o primeiro passo para eliminá-los.
1. Itens especificados mas não registrados
O arquiteto especifica um revestimento durante uma visita à loja com o cliente. A compra acontece ali mesmo, por impulso. Como o item não estava no orçamento formal, a RT nunca é cobrada. Isso acontece com mais frequência do que parece, especialmente em projetos residenciais.
2. Aprovações sem registro formal
O cliente aprova um item por WhatsApp ("pode comprar o sofá"). A mensagem se perde na conversa. Semanas depois, o item é comprado, mas como não havia registro no fluxo de orçamento, a RT passa batida.
3. Divergência entre valor orçado e valor comprado
O orçamento previa um item a R$ 12.000, mas o fornecedor concedeu desconto e a compra saiu por R$ 10.500. Se a RT é calculada sobre o valor orçado, o escritório cobra a mais. Se ninguém atualiza o valor, a RT pode ser calculada errada.
4. Compras diretas do cliente
O cliente decide comprar um item por conta própria, sem passar pelo escritório. Como o arquiteto especificou o produto, a RT ainda é devida — mas se não houver contrato claro cobrindo essa situação, o valor se perde.
5. Fornecedor que não repassa a comissão
Em modelos onde a RT vem do fornecedor, é comum que o pagamento atrase ou simplesmente não aconteça. Sem um controle de contas a receber vinculado a cada item, o escritório não sabe o que está pendente.
6. Projetos longos com muitos itens
Projetos que se estendem por meses acumulam dezenas ou centenas de itens. Sem um sistema que acompanhe o status de cada um, itens aprovados ficam esquecidos.
O impacto financeiro real
Considere um cenário conservador. Um escritório que gerencia R$ 200.000 em compras anuais com uma RT média de 10% deveria receber R$ 20.000 em remuneração técnica. Se 15% desse valor se perde por falhas de controle, são R$ 3.000 por ano que simplesmente evaporam.
Para um escritório maior, com R$ 800.000 em compras anuais, o prejuízo sobe para R$ 12.000 por ano. Em cinco anos, R$ 60.000 — o suficiente para contratar um estagiário por um ano inteiro.
Pipeline completo de RT
Um pipeline de RT eficiente tem cinco estágios claros. Cada um com responsáveis definidos e critérios de passagem para o próximo.
1. Especificação no orçamento
O item é registrado no orçamento do projeto com descrição, fornecedor, valor estimado e percentual de RT aplicável.
Critério de saída: item registrado com todos os campos preenchidos. Sem registro, sem RT.
2. Cotação validada
Pelo menos uma cotação formal é obtida do fornecedor e registrada junto ao item. O valor real substitui (ou confirma) o valor estimado.
Critério de saída: valor confirmado por cotação formal. O percentual de RT é recalculado sobre o valor real.
3. Aprovação registrada
O cliente aprova a compra do item. A aprovação é registrada formalmente, com data e forma de aprovação.
Critério de saída: aprovação registrada no sistema. Itens sem aprovação formal não avançam para compra.
4. Compra executada
O pedido é feito ao fornecedor, o pagamento é processado e a previsão de entrega é registrada.
Critério de saída: compra confirmada pelo fornecedor. Valor efetivo registrado.
5. RT recebida
A remuneração técnica é efetivamente recebida. Se vem do fornecedor, o depósito é conferido. Se é cobrada do cliente, a cobrança é emitida e o pagamento confirmado.
Critério de saída: valor da RT confirmado no extrato bancário.
O pipeline só está completo quando o item percorre todos os cinco estágios. Qualquer item parado em um estágio intermediário é sinal de atenção.
Como calcular RT por item
Fórmula básica
RT do item = Valor efetivo da compra × Percentual de RT
Exemplos práticos
| Item | Valor da compra | % RT | Valor da RT |
|---|---|---|---|
| Sofá sob medida | R$ 8.000 | 10% | R$ 800 |
| Marcenaria (cozinha + closet) | R$ 45.000 | 12% | R$ 5.400 |
| Conjunto de iluminação | R$ 6.500 | 8% | R$ 520 |
| Revestimento de piso | R$ 3.200 | 10% | R$ 320 |
| Total do projeto | R$ 62.700 | R$ 7.040 |
Num projeto com R$ 62.700 em compras, a RT representa 11,2% do valor total. Ter essa visão item a item permite identificar rapidamente se algum item está com percentual fora do padrão ou se alguma RT não foi cobrada.
Contratos e transparência
A forma como a RT é tratada no contrato com o cliente define se ela será uma fonte de receita tranquila ou de conflito.
O que incluir no contrato
- Definição clara: o que é RT e por que ela existe
- Percentuais aplicáveis: por categoria de produto ou percentual único
- Base de cálculo: sobre qual valor a RT incide (compra efetiva, nota fiscal, tabela)
- Forma de cobrança: diretamente do cliente ou via fornecedor
- Prazo de pagamento: quando a RT é devida
- Compras diretas: o que acontece se o cliente comprar sem intermediação do escritório
Melhores práticas de transparência
Apresente a RT como serviço, não como comissão. O cliente está pagando pelo trabalho técnico de pesquisa, seleção, negociação e acompanhamento.
Mostre o valor agregado. Se o escritório conseguiu um desconto de 15% em uma marcenaria de R$ 45.000, o cliente economizou R$ 6.750. A RT de R$ 5.400 (12%) representa menos do que a economia obtida pela negociação.
Mantenha um relatório acessível. O cliente deve poder consultar quais itens geraram RT, quais valores foram aplicados e qual o total.
O que revisar toda semana
O controle de RT exige revisão periódica. Uma checagem semanal de 15 a 20 minutos é suficiente.
Checklist de revisão
- Itens aprovados sem compra: foram aprovados pelo cliente mas ninguém fez o pedido
- Compras sem recebimento de RT: produto entregue, mas RT não cobrada/recebida
- Valores divergentes: valor da compra difere do orçamento em mais de 5%
- Itens parados há mais de 15 dias: item estagnado em qualquer estágio por mais de duas semanas
- Comissões de fornecedor pendentes: pagamentos em aberto há mais de 30 dias
Sinais de alerta
- Mais de 20% dos itens aprovados sem compra registrada
- RT média do projeto abaixo de 8% (pode indicar itens não registrados)
- Fornecedores com mais de 30 dias de comissão pendente
RT e o financeiro do escritório
RT não é receita de projeto
Um erro comum é somar a RT ao faturamento de honorários. Isso infla o resultado aparente e mascara a rentabilidade real dos serviços.
A RT deve ser registrada como uma categoria de receita separada, com sua própria linha no DRE. Isso permite analisar:
- Qual a participação da RT na receita total
- Quais projetos geram mais RT
- Se o esforço de gestão de compras está sendo adequadamente remunerado
Fluxo de caixa
A RT tem comportamento de fluxo de caixa diferente dos honorários. Enquanto honorários seguem um cronograma previsível, a RT depende do ritmo de compras do projeto. Por isso, não deve ser considerada como receita recorrente no planejamento financeiro.
Perguntas frequentes
O que é remuneração técnica na arquitetura?
Remuneração técnica (RT) é o valor que o arquiteto ou designer de interiores recebe pela especificação, negociação e gestão de compras de produtos e materiais em nome do cliente. Ela remunera o trabalho técnico envolvido na seleção de itens compatíveis com o projeto, comparação de fornecedores e acompanhamento de entregas. Os percentuais variam entre 8% e 15%.
Qual o percentual de RT cobrado?
Os percentuais mais praticados no Brasil ficam entre 8% e 15%. Mobiliário e marcenaria costumam ter percentuais maiores (10% a 15%), enquanto revestimentos e materiais de acabamento ficam na faixa de 8% a 10%. O percentual deve ser definido em contrato antes do início do projeto.
Como incluir RT no contrato com o cliente?
O contrato deve conter uma cláusula específica definindo o que é RT, quais percentuais serão aplicados por categoria, sobre qual valor incide, como será cobrada e o que acontece em caso de compras diretas feitas pelo cliente.
RT é obrigatória? O cliente pode recusar?
A RT não é obrigatória por lei, mas é uma prática reconhecida e amparada pelo Código de Ética do CAU. O cliente pode negociar os percentuais ou optar por um modelo que já inclua a gestão de compras nos honorários. O importante é que as condições estejam claras desde o início.
Como controlar a RT de muitos itens em projetos grandes?
Projetos com dezenas ou centenas de itens exigem um sistema organizado. Planilhas funcionam para projetos pequenos, mas perdem eficiência rapidamente. O ideal é ter uma ferramenta que vincule cada item ao seu status no pipeline (especificado, cotado, aprovado, comprado, RT recebida) e gere alertas para itens parados.
Controle RT item a item
Se o seu escritório movimenta compras para clientes, a remuneração técnica é uma fonte de receita legítima que merece o mesmo nível de controle de qualquer outro fluxo financeiro. Não basta saber o total — é preciso acompanhar cada item, em cada estágio, com valores atualizados e prazos claros.
O Braxio oferece um pipeline de RT integrado ao módulo financeiro, onde cada item do orçamento é rastreado automaticamente da cotação ao recebimento. Itens parados geram alertas, valores são recalculados conforme a compra efetiva, e o DRE separa receita de honorários e receita de RT com clareza. Se você quer parar de perder dinheiro com RT descontrolada, vale conhecer.



